Besouro sem asas: Filme tem diálogos fracos e história confusa
30-10-2009 11:11:51
Besouro sem asas: Filme tem diálogos fracos e história confusa
Ivan Dias Marques | Redação CORREIO | Fotos: Divulgação e Guto Costa
A decepção é proporcional à expectativa. Essa é a tônica de Besouro, longa-metragem de João Daniel Tikhomiroff. A história do capoeirista baiano Manoel Henrique Pereira (1897-1924), que virou lenda nas rodas e nos cânticos da arte-luta pela agilidade e capacidade de fugir dos inimigos (nos causos populares, Besouro Mangangá voava), foi transformada em um filme com orçamento de R$9 milhões, efeitos especiais hollywoodianos e equipe técnica de ponta.
Besouro era o preferido do público para ser o filme brasileiro indicado ao Oscar (quem acabou escolhido foi Salve geral, de Sérgio Rezende) e seu trailer teve milhares de acessos no YouTube. Infelizmente, por mais que se tenha boa vontade, ele peca em vários aspectos. O principal deles é aquele que todo filme que tem pretensão de ser bom precisa: um roteiro competente.
Apesar de ter bons efeitos, ‘Besouro’ peca, sobretudo, pelo roteiro fraco
Os diálogos são fracos, falta consistência nos personagens e a construção da história é confusa. Os efeitos especiais (bacanas na maioria das vezes) e a fotografia de Enrique Chediak se misturam a uma direção de arte falha e a má utilização dos recursos visuais comandados pelo chinês Huen Chiu Ku (o mesmo de Kill Bill, O tigre e o dragão e Matrix).
A confusão de sotaques baiano, pernambucano e carioca (sim, carioca!) e a feira popular inverossímil, por exemplo, são pontos fracos. O ator principal, o capoeirista baiano Ailton Carmo (que não tinha experiência em dramaturgia), temdificuldade nos diálogos, apesar de todo seu esforço. Nas cenas de luta e quando contracena com os orixás - algumas das melhores sequências -, ele se sai bem.
Gilberto Gil, na foto comRica Amabis, Pupilo (Nação Zumbi) e o diretor João Daniel Tikhomiroff, fez a música-tema do filme
Mas, mesmo com defeitos, Besouro não é uma lástima. Temboas passagens, como a que Besouro e Dinorá (Jéssica Barbosa) misturam amor e capoeira, a luta entre o personagem principal e Quero- Quero (Anderson Grillo) e qualquer uma que envolva Noca de Antônia (o excelente Irandhir Santos). A trilha sonora, com músicas de Gilberto Gil e Nação Zumbi, é marcante.
Apesar de ser um diretor estreante em longa-metragem, Tikhomiroff (carioca radicado em São Paulo) é premiadíssimo na publicidade e, por isso, esperava-se um cuidado técnico maior com uma história que envolve uma lenda tão rica e que é motivo de orgulho baiano como o Besouro Mangangá.